Quarta-feira, 14 de Maio de 2008

Mostra a Bunda!

- Mostra a bunda.
Não, não é o que parece. Sua leitura não será recheada de frases promíscuas ou trechos pornográficos. Nem mesmo confissões de experiências carnais inesquecíveis serão despejadas. Fantasias adormecidas no inconsciente imaturo e afogadas em enchentes hormonais? Errou de novo. Este texto ultrapassa o pensamento premeditado de qualquer alçapão orgásmico e relaxa em outra aberração comportamental de nossa sociedade: o exame médico admissional.
Sempre desprezei qualquer visita médica que não fosse acompanhada de sintomas. E estes, quando existentes, deveriam ser justificados por dores agudas e secreções de cor enjoativa. “Não, senhor, isto nem chega perto da cor mostarda e da consistência mal-escorrida do pus, saia já do meu consultório!” Até mesmo os exames de rotina, mera confirmação da desarmonia alimentícia e física que levamos, somente alertam para o desempenho covarde do nosso organismo. Culpa dos triglicérides indecisos.
Mas no caso dos exames admissionais, a aversão surge mais ardida. A começar pelos distintos consultórios que oferecem o serviço às empresas. Escondidos em edifícios de acesso promíscuo – ninguém sabe quem entra ou sai – suas salas são controladas por uma secretária de humor canino e um médico de referências descartáveis. “Peraí! Mas eles estudam longos seis anos para adquirir conteúdo científico relevante que permita a detecção de diagnósticos precisos”. Certo, confie mais do que um “diga 33” a eles e veja o resultado.
Percebe-se no olhar semi-aberto destes médicos a incoerência entre o que pretendiam ser e o que se tornaram. O diploma pendurado na parede e as lembranças do juramento confundem-se a cada consulta de dez minutos. Rabiscam “ok’s” automáticos em papéis timbrados, enquanto flutuam os interesses privados como se intoxicados em rios de éter. Mesmo que lutem contra a padronização do teatro que contracenam, acabam vítimas da própria repetição descerebrada. “Tome esta pílula a cada oito horas...”
Sempre vivi experiências que confirmavam a falácia profissional destes médicos e seus carimbos frenéticos. No entanto, a última delas mereceu atenção especial. O bombardeio de perguntas evidenciava a prática de memorização do médico.
- Algum caso de derrame na família, insuficiência hepática, diabetes, infarto, lepra, catapora, rubéola, hemofilia?”
Antes que pronunciasse os “nãos” que se atropelavam em minha cabeça, recebia novo repertório:
- Furunculite, desmaios, vômito, convulsão, alergia, sangramento, micose, catarro?
Precisava me segurar para não dizer que a única dor que sentia naquele momento era nas bolas, justamente por agüentá-lo. “Estão vermelhas e inchadas, doutor, será que é grave?”, imaginei sem abrir a boca. Nem mesmo segurei o riso interno e fui surpreendido por sua voz falhada – talvez devido ao pulmão preto, levando em consideração a cor cinzenta de seus lábios e dedos.
- Tire a roupa.
- Desculpe, o que...
- Estudei seis anos, rapaz. Tire a roupa.
Antes que começasse a tirar o tênis, para facilitar o desnude, recebi nova repreensão:
- Não precisa tirar o tênis, rapaz!
- Mas como...
- É só arriar! Só arriar!
- ...ok.
- Agora sopra a mão direita com força.
- Quê?
Fingi que não estava entendendo o procedimento, já que ouvira estórias igualmente bizarras em processos de alistamento militar. O que me fazia contestar, no entanto, era o falso rigor para a futura função de redator. Sim, concordo que é preciso ter culhão pra escrever sobre determinados assuntos – este texto é um grande exemplo, aliás – mas suas anatomias não precisam ser literalmente aprovadas. Precisam?
- Assim, não, rapaz! Sopra com força!
Soprei. Por um momento imaginei meus olhos pulando das órbitas diretamente sobre o cinzeiro em formato de caranguejo que enfeitava a mesa. Talvez fosse presente de algum paciente – duvido! – ou da própria secretária com cara de safada – aposto!
- Mostra a bunda.
Segurei a risada que tentava escapar entre os dentes. Quais sinais assombrosos poderiam marcar minhas nádegas e, conseqüentemente, impossibilitar meu trabalho como redator? O tamanho do “ponto final”, talvez? De qualquer forma, girei o corpo com desconfiança. Estava a uma distância razoavelmente segura do médico, mas não queria arriscar.
- Ok. Pode se vestir.
- Graças a ...
- Mais uma coisa.
- O quê?
- Você já fez alguma cirurgia?
Já cansado da metodologia infantil daquele exame, arrisquei mentir:
- Fiz, sim, doutor. Rasguei toda a extensão do tornozelo ao descer um penhasco com um carrinho de rolimã. Após três cirurgias, me liberaram o andador. Dois anos depois ia a qualquer lugar com minhas muletas. Tenho 12 pinos sustentando os ossos.
- Mas você consegue andar normalmente, né?
- Claro que sim, como um competidor de marcha atlética.
- Aqueles que rebolam?
- Esses mesmos.
- Hum... ok, rapaz. Você está aprovado no exame de admissão.
Após rabiscar uma assinatura qualquer, enfeitada por círculos e pontos forçados, recebi o papel que confirmava minha capacidade física para o trabalho. Comecei a ler o documento, já em pé, enquanto seguia em direção à saída. Antes que cruzasse a porta, percebi um erro e comentei impulsivo:
- O senhor escreveu “tornoselo”.
- E...?
- “Tornoselo”, com “s”.
- Qual o problema?
- Er... nenhum.
Despedi-me e acionei o botão do elevador sem pressa, imaginando que talvez seis anos não fosse tanto tempo assim.

Domingo, 4 de Maio de 2008

Finalistas: Concurso Aumento um Ponto


Dois meses atrás participei do concurso Aumente um Ponto, do site Lendo.org. Dos cinqüenta inscritos, os dez melhores foram selecionados e reunidos no e-book “Aumente um Ponto”. Inscrevi o conto Hotel Trombose e fiquei em oitavo lugar (corre lá, página 32 do e-book).

Confira a lista completa:

1. Pra quê ser assim, Rosalva?, de Jordani Cantelli
2. Muito mais do que amigos imaginários, de André Luiz Melo
3. O Mistério do Grilo Negro, de Christian Gurtner
4. Toda Galinha, de Fernanda Cristina de Paula
5. O Papai Noel sem Botas, de Ana Maria Iasinski Giongo
6. A ameaça atual, de Hugo Silva
7. A aparição, de Franco Chiariello
8. Hotel Trombose, de Felipe Valério
9. Leão, de Fábio Roberto Mariano
10. O Monstro do Lago, de Regilene Alves Paiva

Para fazer o donwload do livro é só clicar aqui.

Sábado, 12 de Abril de 2008

Entrevista do Futuro

Ano: 2054. Localização: Central do Governo Brasileiro para Assistência à Recolocação Profissional. Horário: 9:30:01. Ativar caixas de som cromadas para anúncio de procedimentos. Carregando... Iniciar transmissão.
Bom dia, candidatos. Sejam bem-vindos à Central do Governo Brasileiro para Assistência à Recolocação Profissional. Os eletrodos conectados às superfícies de seus crânios não devem ser removidos em hipótese alguma, mesmo que o sangramento se apresente abundante. Salienta-se que o procedimento em questão é estendido às agulhas alargadoras de pálpebras e às sondas de desgaste peniano. A sensação de formigamento nos mamilos é normal e deve-se à emulsão do suco da casca de figos transgênicos e as gotas de soda cáustica.
As pílulas que preenchem os supositórios metálicos localizados nos suportes giratórios devem ser consumidas na seguinte ordem: azul de metileno, vermelho acetinado, rosa-calcinha e amarelo bicolor. Qualquer variação cromática, que não a estipulada, acarretará em eliminação do processo seletivo, além de ardência profunda durante os sete dias que seguem a data de hoje.
Somente garantimos a confidencialidade do boletim neural e das alterações psíquicas caso as instruções estabelecidas acima sejam respeitadas. Candidatos em jejum devem registrar esta condição junto aos terminais eletrônicos para que recebam energéticos com sabor Steel Mushroom, cortesia de nossa parceira de projetos Cyber Doping S.A.
As luzes estroboscópicas indicarão o início deste processo seletivo. Sigam em direção aos respectivos robôs-entrevistadores em cada seção. Candidatos alérgicos à essência de metanol, abelhas bombadas do Burundi ou bolinhas de queijo oleosas deverão provar esta condição durante a etapa de medição de resistência. O governo brasileiro deseja boa sorte a todos os 1.433.958.457 candidatos.
- Bom dia, candidato C-22.
- Bom dia.
- Análise parcial: batimentos em 120 e respiração tranqüila. Bom dia, candidato C-22.
- Ué? De novo?
- Detectado aumento nos níveis de testosterona e sudorese.
- Mas...
- Candidato C-22, reprovado.
- Você nem...
- Favor se encaminhar ao setor de higienização nuclear para remoção intracirúrgica de chip curricular antes de deixar a empresa. O governo brasileiro agradece sua participação e compromete-se em comunicá-lo caso surjam vagas que se adaptem ao seu perfil.
- Bom dia, candidato E-49.
- Bom dia.
- Análise parcial: batimentos em 100 e respiração prejudicada por adenóide em formação primária. Idiomas?
- Inglês, espanhol, francês, alemão, sueco, mandarim, uzbequistanês, esperanto e italiano moderno.
- Básico, avançado ou fluente?
- Er.. humm... fluente...?
- Atenção, Central de Lingüística Avançada. Favor encaminhar equipe de especialistas para análise de flexibilidade das papilas gustativas. Materiais para medição do alcance da língua devem ser providenciados no Setor de Lâminas e Bisturis de Raspagem.
- Na verdade...acho que é básico...
- Detectada incoerência informativa, desespero precoce e descontrole do fluxo intestinal. Lançamento de aromatizador atmosférico ativado. Candidato E-49, reprovado.
- Bom dia, candidato J-101.
- Muito bom dia! É um prazer estar aqui!
- Candidato J101, é dever deste órgão alertá-lo que a arcada dentária que sustenta seu sorriso falso e inoportuno consta em nossos registros. Fios de cobre, conectados sob os nervos que fixam seus dentes do siso, serão estimulados caso o quadro de falsidade ideológica persista.
- Mas pra quê isso? Estamos todos junto nessa, amigo.
- Robô-entrevistador 5-5-Y, cabine ZIX-65, solicitando permissão para aumentar a carga de tensão em sua programação argumentativa. Carregando... permissão concedida.
- Mas... o que....
- Cale a boca, candidato J-101. Você se acha grande merda, não é?
- Que é isso... eu...só...
- Me chame de senhor, seu saco de bosta! Senhor!
- Mas você... é... um ..robô...
- Detectado aumento no fluxo urinário na sonda de penetração auxiliar. Descontrole emocional evidente. Candidato J-101, reprovado.
- Bom dia, candidato L-34.
- Bom dia.
- Experiência profissional?
- Gerente sênior do Projeto Genoma, responsável interino pela adequação dos fusíveis cerebrais para detecção de sentimentos pré-determinados nos sobreviventes do massacre russo, idealizador da pesquisa que resultou no desenvolvimento de tecidos que adaptassem sem rejeição os olhos na nuca, vendidos nos formatos “normal”, “puxado” e “esbugalhado” nas melhores farmácias, e criador da pílula que atrofia os órgãos genitais, agilizando processos de adaptação de sexualidade em recém-nascidos.
- Idade?
- 16 anos.
- Detectada discrepância entre procedimentos de seleção. Carregando pré-requisitos do processo... Idade máxima para a vaga em questão: 10 anos.
- Mas ninguém....
- Candidato L-34, reprovado.
Caros candidatos, os processos seletivos serão interrompidos durante 9 minutos e 18 segundos para que a manutenção preventiva dos robôs-entrevistadores seja executada. Sintam-se à vontade para degustar nossas pílulas de salmão no Restaurante Arroba Neles, no piso M-54. As cápsulas de transporte estão localizadas ao lado dos reatores trifásicos.
- Ufa, finalmente um descanso.
- Nem me fale, essa roupa de robô é quente pra porra.
- Achou alguém pra vaga?
- Nem. Tu sabe né, cara, os mesmos manés de sempre.
- Só! A mesma coisa comigo.
- E a tua aposentadoria integral? Já saiu?
- Já! Fiquei sabendo hoje.
- Porra, cara! Viva o governo!
- Viva o governo!
- Temos que comemorar!
- Agora?
- Opa!
- Cervejinha e torresmo?
- Arroba neles!
- Já é, então?
- Já foi!

Domingo, 23 de Março de 2008

Escreveu, não leu...

- Não acredito! Roubaram meu som!
A frase, que completa um ano de vida nesta semana, foi cuspida com raiva pelo curto espaço que sobrava entre meus dentes rangidos. Acabara de sair de um treinamento quando encontrei a porta do carro entreaberta. Ou melhor, gentilmente encostada, para ser mais claro. O buraco escancarado que adornava o painel cavava outro em minha carne. Mutilado e indefeso, percebi que a velocidade marginal sempre ultrapassa nossa esperança morosa. Estamos acostumados a escorregar nossos sonhos em câmera lenta, torcendo para que não polvilhem sal em nossos traumas de lesma. Somos fracos, sim. Ah, cagões, também.
Naquele dia, a musicalidade que me fora raptada dos ouvidos não indignava. O que realmente nauseava minha garganta era o grito azedo, adulterado no tumulto de uma vida distorcida e preso como bolas de ferro aos pés. Exagero? Talvez seja essa depressão corrosiva que falte em nossas promessas coloridas. Lembra daquele vídeo com moscas sujas beliscando as pálpebras dos famintos recém-nascidos africanos? Viu? Você já está com os olhos encharcados de novo.
Enquanto ligava o carro semi-nu, sabia que meu CD player estaria longe. Dissolvido em fino pó aristocrata, diluído em seringas de ponta irresistível ou até mesmo em sua solidez original, adornando alguma festa bandida. Playlist da noite: Funk dos Trouxas. Letra e música: povo brasileiro.
As esferas dos semáforos que mapeavam aquela madrugada confundiam-se em minha tolerância. Exigia que todas pipocassem aquele amarelo enjoativo. Atenção! Atenção, Brasil! Você ainda não está pronto para seguir.
Mas e se aquele mísero aparelho de som virasse comida? Talvez um pai de família, enforcado na incompreensão humanista, apenas buscasse alternativas imediatas para o estômago oco de seus filhos. Sim, é isso! Imagine os braços fracos aplaudindo a determinação arriscada do pai. Todos com as gargantas em túnel, aguardando a colherada de mistura da semana. Você é o nosso herói, papai!
Outros poderiam dizer que o problema central é a falta de educação. Não aquela que inibe nossos instintos primatas à mesa, mas a que deveria ser ensinada nas escolas de isopor. 1-1=0. Pronto, já sei que roubar é errado, tia. Resolvi confirmar esta teoria. Naquela mesma noite, coloquei alguns livros no banco traseiro do carro. Eça de Queirós, Fernando Pessoa, Mário Prata, Rubem Fonseca e mais alguns que julgava literariamente sedutores. A partir daquela data, o tecido automotivo serviria de vitrine para bandidos, estupradores, delinqüentes juvenis, malandros sazonais. A “educação”, tão justificável em nosso discurso paupérrimo, estamparia naquelas capas seu convite ao crime.
Neste período, estacionei o carro propositalmente nos cantos mais inóspitos da cidade. Em pouco tempo, o faro para cenários marginais já afiava minhas narinas. Torcia para que jovens equilibristas de imundas bolinhas de tênis esticassem seus pescoços para as capas coloridas. Esqueçam a timidez, rapaziada. Arrebentem as janelas e levem tudo. Prometo não dar queixa.
Um ano depois, a coleção de livros continua lá. Poucos questionaram ou notaram sua existência. Apenas alguns amigos, incomodados com a falta de espaço, perguntaram se poderiam sentar sobre eles. Podem, sim, mas muito cuidado com o Dom Casmurro, ainda tenho alguma esperança neste. Para minha surpresa, ontem abri meu porta-malas e descobri o impensável: neste mesmo período, alguém havia roubado meu estepe.
Talvez seja exatamente isto que o Brasil precise: ficar sustentado em oficinas sociais até que alguém - com mais força, coragem e dedicação do que eu - nos salve da nossa própria incapacidade em reagir. Enquanto isso, aguardarei paciente nos acostamentos da vida.
Sentindo-me traído e culpando Nelson Rodrigues.

Segunda-feira, 3 de Março de 2008

Borrachudo

“Ilhabela é o único município-arquipélago marinho brasileiro e destaca-se por possuir 92% de Mata Atlântica preservada. Fazemos passeios de jipe pela Mata Atlântica”
A informação perdia-se no panfleto sob os pés de alguns caiçaras. Com algum esforço, consegui ler à distância enquanto sentia a balsa descolar sua lateral do porto de São Sebastião. Quinze minutos separavam meu instinto turístico da ilha que ilustrava o folheto publicitário. A chance de desfrutar o conceito “sol, mar e água fresca” finalmente chegara. Nada atrapalharia o otimismo eufórico daquele final de semana. Bom, quase nada.
Os poucos minutos asfaltados entre a saída do estacionamento flutuante e a pousada escolhida desenhavam uma curiosa paisagem. Homens, mulheres, velhos, cachorros, não importava. Todos mantinham o hábito – ou cacoete, quem sabe – de alisarem rapidamente os braços e pernas, como se expulsassem algum espírito mau da pele bronzeada. Estacionei o carro e deixei as especulações de canto. Descobriria mais tarde que nenhuma entidade sobrenatural merecia tal comparação.
Cinco minutos depois, as malas já enfeitavam o chão quente do quarto. Enquanto minha namorada ajustava a câmera, eu esperava ansioso o inesquecível passeio de jipe pela Mata Atlântica. A da foto no panfleto? Essa mesma. Três horas sacolejantes em um Toyota adaptado foram necessárias para subir os quinze quilômetros de mato que cortavam a ilha. Qual destino merecia este sacrifício? A famosa Praia de Castelhanos. Recomendação empolgada de um amigo.
Água cristalina, areia branca, vento equilibrado. O Sol estendia os raios como se convidasse meu corpo a aquecer sua carne em fogo baixo. Antes que tirasse os chinelos percebi algumas marcas vermelhas enfeitando meus pés. “Borrachudo”, disse cansada uma senhora de calça jeans e tênis na areia. Ainda sem entender o que levaria alguém a suar as dobras com aquelas roupas, percebi outra mancha. E outra, e outra, e outra.
Permanecemos naquela praia por quatro horas. Tempo suficiente para que meu corpo ficasse tomado por marcas bizarras. Algumas se atropelavam no desenho da canela e formavam caroços distorcidos. Outras, finalizavam seu objetivo sob a fúria das minhas unhas. Todas coçavam. E muito.
Turistas aleatórios pareciam conhecer os padrões de ataque dos borrachudos e se sentiam à vontade para divulgar suas curiosidades. “Eles só vivem um dia”, “só as fêmeas atacam”, “onde tiver um borrachudo, tem água limpa”, “são atraídos por roupa escura”. Que ótimo, eu estava mesmo de camiseta preta. Constrangido com os olhares de “coitado, que moleque azarado”, pensei em dizer que estava de luto. Infelizmente, nenhuma piada serviria de consolo. Menos ainda uma sem-graça. Esperei as portas abrirem e o motor tossir. Chegara a hora de voltar ao jipe.
Entre coceiras frenéticas, fomos despejados de volta às nossas respectivas pousadas. Meu humor – ou melhor, a falta dele – era evidente. A recepcionista desviou os olhos lentos para meu corpo tricotado por picadas e suspirou sem espanto “hummm... borrachudo...” Outros que cruzavam meu caminho divertiam-se com meu pânico. “Você acha que tá doendo agora, é? Você vai ver amanhã!”
Preocupado com as previsões catastróficas, meu instinto hipocondríaco fez com que corresse à farmácia mais próxima. Antes que pedisse algum tratamento emergencial, fui surpreendido por uma caixa de remédios. “Toma um comprimido agora. Só assim seu pé não vai amanhecer parecendo uma jaca”, antecipou-se a atendente com um sorriso falso. Agradeci e tomei dois de uma só vez. Ou três, não me lembro.
De volta a São Paulo me programei para cruzar com o amigo que havia recomendado a viagem. Entre tapinhas nas costas e conversas descartáveis, ele analisou cada bloco avermelhado que ilustrava meu corpo. Apertou os lábios com força e disse, com um característico sorriso filho-da-puta:
- Não falei pra você que a Praia de Castelhanos seria uma aventura “marcante”?
Acompanhei a gargalhada do meu ex-amigo se perder no tumulto da rua, contando lentamente até dez. Cocei algumas bolhas na nuca com raiva. Bancar o inocente, aos 28 anos? Aquilo só podia ser o fim da picada.