Sexta-feira, 12 de Junho de 2009

Hotel Trombose premiado no IV Concurso Poesia Falada

Opa! Eu de novo. E com novidade boa. Muito boa!

Ontem participei do IV Concurso de Poesia Falada, promovido pelo Espaço Parlapatões.

Como funcionava: você se inscrevia com um poema, aparecia lá, agarrava o microfone e falava (na cara e na coragem) seu texto. Depois era só tomar uma cerveja com os amigos e curtir o fim do nervosismo.

E tinha de tudo lá. Caras mais velhos, caras mais novos, textos raivosos, textos românticos, poemas curtos, poemas longos, engajados, divertidos, letras de músicas. Tudo muito bom. Tudo.

E tinha o meu. Esquisito. O tal do "Hotel Trombose".

Que acabou ganhando. Vixe. Puta alegria. De verdade. Fiquei até com cara de mané. Perdido.

Este vídeo é a minha segunda leitura (o bis), depois que anunciaram os vencedores.

E, sim, eu estava nervoso pra cacete.

Ah! Os escritores e amigos Jorge Ribeiro e Pilar Bu também estavam lá! E mandaram muito bem!



Ficou difícil de entender? Segura aí o texto:


Hotel Trombose

Tem puta.
Cafetão. Leitinho quente.
Tem sacanagem a cabo.
Gemido de filme. Fita cacete.
Tem velho com criança pequena.
Que baba de dor. De medo. De tesão.
Tem gente levando por fora.
Por trás. Por onde. Porque?
Tem pedido pra tomar esporro do céu.
Da boca.
Tem documento 3x4.
Amassado na cara.
Tem mão fora de hora.
Na garagem. Na escada. Na boa.
Tem um suco preto do dia.
Na parede do doido.
Tem crime hediondo.
Sem culpa. Calado.
Tem um coágulo que treme vermelho.
Grosso. Salgado.
E tem hotel.
E tem trombose.
E tem reserva.
E tem um nome.
Riscado. Com sangue.

O seu.

Sábado, 30 de Maio de 2009

Mãozinha Boba

Sobe. Desce. Sobe. Desce. Chega tá machucado o bilauzinho do menino. Não brigo não. Menino teve meningite ainda pequeno. Virou vegetal. Não mexe nada. Não mexia. Descobriu a carninha e agora fica só massageando. Sobe. Desce. Sobe. Desce. Tá com dezesseis. Olho bem azulzinho. Lindo. Ontem teve até gotinha. De suor. Escorrendo da testa. Limpei com o babador dele. Presente da vó. A mãozinha mal cabe no pinguelo. As vizinhas nunca viram coisa igual. Querem fazer piada. Não deixo não. Menino é vegetal. Não ouve. Não mexe. Mas sente. Quando tá bem gostoso ele treme o bracinho. Bem rápido. Chega a fazer um barulhinho engraçado. A irmãzinha acha bonito e começa a dar risadinha. Coisa de criança. Fico emocionada. Até cuequinha apertada já botamos no menino. Pedido do tio. Presente da tia. Mas ele sempre dá um jeitinho. Menino esperto. Escorrega a mãozinha tortinha por dentro. Agarra de uma vez. Chega a esmagar o cacetinho. A cabecinha fica bem vermelha. Parece um pirulito. Aí eu ajudo o pobrezinho. Sou mole. Coloco a minha mão por cima da mãozinha dele. Subo. Desço. Subo. Desço. Bem rapidinho. Vira tudo uma coisa só. Aí eu acelero mais um pouquinho. O olho vai brilhando. Só paro quando o braço dele treme sozinho. E vem um barulhinho engraçado. E o mindinho levanta. E aparece uma gota bem branquinha. Na ponta da cabecinha. E a irmãzinha acha bonito. E começa a dar risadinha. E aí eu tiro a minha mão. E começo a chorar. Baixinho. Que é pro menino não desanimar. Nem eu.



Conto escrito para a Oficina Narrativas Breves (e outras nem tanto) com o cabra Marcelino Freire. Argumento de Jorge Ribeiro (outro cara que manda muito bem).

Quinta-feira, 21 de Maio de 2009

Boca Suja

Cheirei o que não devia. Trepei com quem nem sorria. E tu vem com moral pra cima de mim? Esse corpinho não foi feito pra ideia de pivete. Sai pra lá, porra. Já mandei tirar esse troço da cabeça. Que arrepio o quê? Medo de rato não é medo de homem. O cacete que eu entendo! Esqueceu quem abriu a porta? Pena, seu coitado, foi pena, sim! Vai virar macho e enxugar esse choro de menina. Conheço tua cara e não é de foto pequena. Pacote vida de merda. Mulher e cachorro e filha com nome de artista. Vira a mão pra ver, vira! Rasgo teu peito homem! Toma a tua calça. Vaza. Problema meu? Vai reclamar com quem te colocou no mundo e escondeu a teta. Que bons tempos? Quero mais é que a chuva te leve e o esgoto engasgue. Consideração uma porra. Tira esse olhar de coitado porque teu papo tá na minha. Cansei não é de hoje. Mas tu quis ser esperto e tentar e forçar e rodou. Perdeu a carne. E olha que tem um morro querendo chupar cada ossinho. Mas ninguém se mete a malandro não! Foi ser esperto. Vai pagar em dobro o cacete! Sorte tua não sair daqui embaixo de porrada. Tu sabe que tem homem de sobra pra arrancar teu coro, não sabe? O lance é protegido, coisa de ética e o cacete. A gente faz voz de santa e dá risadinha e rebola rapidinho e grita bem doida e até fala que ama. Firmeza, cada uma sabe a necessidade que vinga. Agora, beijinho na boca? Tu tá achando que eu sou o quê?
Conto escrito para a Oficina Narrativas Breves (e outras nem tanto) com o cabra Marcelino Freire. A única exigência era começar o texto com a ótima frase "Cherei o que não devia", do autor Vinícius Mattar, colega de oficina.

Quinta-feira, 23 de Abril de 2009

Tem Nada Não

Tem o pau dele. Fedido. Cabeçudo. Imundo de tesão.
Tem a prexeca dela. Escura. Peluda. Molhada de mijo.
Tem o papelão dele. Aberto. Forrado com anúncio de puta.
Tem a roupa dela. Torta. Arrastada. Rasgada no rego.
Tem a unha dele. Comprida. Preta. Enfiada de qualquer jeito.
Tem a língua dela. Magra. Seca. Lambida no saco.
Tem o bafo dele. Podre. Cachaça. Rosnado em “fode-porra-vai”.
Tem o peito dela. Caído. Rachado. Engolido pela barba de aço.
Tem a mão dele. Pesada. Tremida. Enterrada na garganta.
Tem a rebolada dela. Esquisita. Ossuda. Ritmada na buzina.
Tem a porra dele. Grossa. Pelando. Errada no cabelo sujo.
Tem a moeda de 1 real dela. Barulhenta. Limpa. Presente.
Tem o sono dele. Mal vestido. Suado. Pendurado em meio pau.
E tem um cachorro. Sarnento. Excitado. Batom vermelho.
Perdido no cu do mundo. E lambido no rabo exausto dos dois.



Conto escrito para a Oficina Narrativas Breves (e outras nem tanto) com o cabra Marcelino Freire. O briefing? "Uma cena erótica entre um mendigo e uma mendiga".

Domingo, 19 de Abril de 2009

Em Família

Vai falar que não? Com essa cara aí, aposto que chorou na escola. De óculos. A mãezinha tentando acalmar. A minha fugiu enquanto eu berrava. Tinha peito a doida. Mas nunca chupei. Dieta da farinha. Virei amido e homem e macho. Vai falar que não? Pra me desafiar tinha que mastigar osso. Mocotó de canela. Orelha de porco. Peixe? Só faz bem pra memória de quem come o rabo. Um melhor que o outro. Provei todos. E você que enfiou o seu no meio das pernas. Vai falar que não? Pra falar grosso tem que ser mais homem que isso. Meter medo. Já afinou a voz de alguém? Ou perdeu a goela cantando na igreja? Tenho medo, não. Pecado é papo de santo que ajoelha e dá as costas. Relaxa na minha que você vai pro céu. Com asa e harpa e estrelinha na testa. Ninguém vai achar nada. A máquina vem sem grito de fábrica. Alívio imediato. Se pudesse fazer sozinho, esquecia seu nome. E outra. O tempo vence. Já fui. Só nêgo de branco não sabe. Concentra, deixa a família de fora e arranca logo esse fio. Ou vai falar que não pro vovô?